Elementos da Fronteira: Território, Memória e Circulação
Minha pesquisa artística parte da vivência contínua na Tríplice Fronteira — conurbação internacional formada por Foz do Iguaçu (Brasil), Ciudad del Este (Paraguai) e Puerto Iguazú (Argentina) — para investigar, por meio da pintura contemporânea, as relações entre território, identidade, circulação e memória.
Compreendo a fronteira não apenas como linha demarcatória ou dispositivo geopolítico de separação, mas como espaço vivo de liminaridade: um território denso de encontros, negociações cotidianas, sobreposições culturais e reinvenções constantes. A pintura opera aqui como meio de desaceleração e registro crítico frente aos fluxos intensificados de mercadorias, energias e corpos que atravessam a paisagem fronteiriça.
Núcleos de Investigação
1. Objetos de Fluxo
Investiga os elementos materiais da economia informal e da travessia cotidiana na Ponte Internacional da Amizade: os carrinhos manuais de transporte, as motos de carga, as embalagens, os sacoleiros e os corpos em trânsito contínuo.
A pesquisa debruça-se sobre a poética das ferramentas populares de trabalho e circulação, convertendo objetos utilitários e desgastados em protagonistas pictóricos que revelam a inventividade e a precariedade das estratégias de sobrevivência no território transfronteiriço.
2. Estruturas do Território (Linhões)
Focado na presença monumental das redes e torres de transmissão de alta tensão que partem da subestação de Furnas, em Foz do Iguaçu, integradas à paisagem desde a implantação da Usina Hidrelétrica de Itaipu.
A partir de registros fotográficos e da convivência cotidiana com essas estruturas, o trabalho investiga a transição entre o detalhe técnico da engenharia pesada e a geometrização progressiva da torre, transformando os linhões em símbolos da verticalidade estatal e da infraestrutura energética que cortam a horizontalidade da vivência local.
3. Origens das Fronteiras
Articula uma reflexão histórica e territorial sobre os limites e tratados geopolíticos que conformaram os Estados nacionais na Bacia do Prata, evidenciando a anterioridade dos povos originários — em especial a presença viva e ancestral do povo Guarani — em relação a essas demarcações.
A abordagem parte da consciência de que as fronteiras políticas modernas se sobrepuseram a uma cartografia territorial e cultural pré-existente, tratando o território como uma ferida aberta e em constante disputa simbólica e social.
Procedimentos e Poética
Processo e Materialidade
O trabalho articula o registro fotográfico documental de campo, a observação direta no território e a pesquisa de arquivos históricos com a prática em ateliê.
Na pintura, o desenvolvimento transita entre a representação figurativa densa e sínteses geométricas, explorando texturas, camadas e contrastes cromáticos que remetem à poeira do solo vermelho, ao concreto das infraestruturas e à vibração visual do comércio fronteiriço.